Quadro a quadro

A maior mostra de arte do mundo apostou na política e deu certo

Paulo Lannes

Bio: Jornalista e estudante de Teoria, Crítica e História da Arte na UnB, viaja o mundo atrás de obras-primas e boas histórias. Aos sábados, ele dará dicas sobre museus e revelará curiosidades desse fascinante mundo das artes.

A maior mostra de arte do mundo apostou na política e deu certo

Paulo Lannes Publicado em 30 de agosto de 2017

Criada em 1955, a mostra de arte mundial Documenta nasceu para tirar a arte de seu conforto e apontar os problemas mais latentes do mundo na cara de todos. A 14ª edição desta exposição, que irá encerrar no dia 17 de setembro, atingiu a esses objetivos e afirmou ao mundo que a arte contemporânea pode, sim, falar muito sobre o que ocorre nos dias de hoje.

 

A 1ª edição da Documenta ocorreu em 1955, dentro do Museu Fridericianum, em Kassel (Alemanha), que ainda estava destruído por conta dos bombardeios da II Guerra Mundial. Foto: Divulgação

A 1ª edição da Documenta ocorreu em 1955, dentro do Museu Fridericianum, em Kassel (Alemanha), que ainda estava destruído por conta dos bombardeios da II Guerra Mundial. Foto: Divulgação

 

Essa é a primeira vez que a exposição ocorre em dois lugares ao mesmo tempo – Kassel, na Alemanha, e Atenas, capital da Grécia. Daí já pode-se tirar um grande questionamento fornecido pela mostra: Vale colocar a Grécia, país que está à ribeira da União Europeia, massacrada de dívidas e de problemas sociais, no centro da arte mundial? A resposta fica no ar.

Não à toa, a principal obra da mostra é uma recriação do Parthenon, templo que é o ponto turístico mais famoso de Atenas, com livros que tiveram exemplares proibidos em diversos países (a título de curiosidade: há obras do Paulo Coelho no meio). Outra obra que se destacou foi a do ganês Ibrahim Mahama, que cobriu um edifício com sacos de café costurados por mão de obra ateniense, de modo a tematizar o aquecimento global, a migração e a exploração internacional da força de trabalho.

 

A obra do ganês Ibrahim Mahama cobriu um edifício com sacos de café costurados por mão de obra ateniense, de modo a tematizar o aquecimento global, a migração e a exploração internacional da força de trabalho. Foto: Divulgação

A obra do ganês Ibrahim Mahama cobriu um edifício com sacos de café costurados por mão de obra ateniense, de modo a tematizar o aquecimento global, a migração e a exploração internacional da força de trabalho. Foto: Divulgação

 

No final das contas, o que a 14ª Documenta propõe é um recomeço, um “desaprender para reaprender”, analisando sobretudo a perspectiva eurocentrista do mundo. “A única certeza é que nada permanece o mesmo”, disse um dos curadores da mostra. É ele também que diz uma frase necessária não só à arte, mas como aos grandes líderes mundiais (ainda mais em tempos de crise): “preciso aprender do próximo para que se possa coexistir”.

A Documenta aborda assim a capacidade criativa da incerteza, a desmontagem da ideia do nacionalismo, o tema dos refugiados, a Grécia e a crise. A agência Deutsche Welle organizou as obras mais marcantes da mostra. Confira:

 

documenta 1

Parthenon de Livros

A obra da argentina Marta Minujín reveste maquete em tamanho natural do templo grego com milhares de publicações proibidas no presente ou no passado. Minujín se apropria de monumentos para replicá-los e trazê-los de volta à esfera pública, redescobrindo o valor de tesouros coletivos.

 

documenta 2

Oníricos e amorfos

Na fronteira entre a abstração e o figurativo, entre sonho e realidade, os corpos alienígenas, fantasmagóricos e hermafroditas, pintados pela artista suíça Miriam Cahn, mostram novas formas de representação que permitem ampliar o entendimento dos conflitos, catástrofes, tragédias e medos em nossa volta, sugerem os curadores da Documenta.

 

documenta 3

Visualizando histórias

Em “Historja”, um bordado de 39 cm x 23,5 m, a artista sueca da etnia sami Britta Marakatt-Labbas relata o cotidiano dos habitantes da Lapônia de forma original, tornando visíveis histórias épicas desse povo autóctone do norte da Escandinávia, pouco consideradas nos cânones oficiais.

 

documenta 4

Memórias vivas

A Documenta 2017 mostra que uma história pode ser contada de várias forma. Como nesta instalação com objetos, roupas, troféus, discos e material de arquivo que Igo Diarra e o centro cultural e mediateca La Médina dedicam ao músico malinês Ali Farka Touré (1939-2006). Um concerto dos músicos originais de sua banda também faz parte desse memorial.

 

documenta 5

Da Amazônia ao Polo Norte

Hans Ragnar Mathisen, artista norueguês da etnia sami também conhecido como Keviselie, diz que, ao reclamar para si territórios indígenas, colonizadores aproveitaram a oportunidade para nomeá-los. Em seus mapas, o artista lapão substituiu esses nomes pelos em sami, aproveitando a oportunidade para abolir fronteiras.

 

documenta 6

Ontem e hoje

Ilustrando a instrumentalização imperialista da linguagem visual, o francês Michel Auder mostra, numa videoinstalação sem som, imagens que não param de gritar: a guerra na TV, tuítes sobre genocídio, fotos pornô. O título “The Course of Empire” (“O curso do Império”) remonta a ciclo homônimo de pinturas do americano Thomas Cole (1801-1848) – do “Estado primitivo” à “Destruição” e “Abandono”.

 

documenta 7

Arte e violência

Violência e crime como formas de transgressão e expressão artística? Esse é um tema que vai, nos próximos tempos, ocupar discussões em pódios e revistas especializadas sobre arte, mas já antecipado pela Documenta 2017 em trabalhos como a projeção dupla “Commensal”, de Véréna Paravel e Lucien Castaing-Taylor, sobre o japonês, canibal e autor de vários livros, Issei Sagawa.

 

documenta 8

Denúncia artística

Violência como forma de denúncia artística também se pode ver na instalação “El Objetivo”, da guatemalteca Regina José Galindo. Aqui visitantes fazem uso de uma réplica da metralhadora G36, de fabricação alemã. Além de denunciar a violência com armas alemãs em seu país, na obra, Galindo também expõe passividade do público, que pode mirar na artista posicionada no centro de uma sala de exposição.

 

documenta 9

Ponto de vista pessoal

A ressonância poética das obras da Documenta 14 está ligada também ao lugar onde estão expostas. Numa antiga loja de Kassel, a artista libanesa Mounira al Sohl revisita de forma pessoal o período da guerra civil em seu país, por meio da descrição da “Nassib’s Bakery”: a padaria como um meio de sobrevivência durante o conflito, até sua destruição por um bombardeio.

 

documenta 10

Uma mostra em transição

Pela primeira vez, a Documenta transcorre em duas locações, Atenas e Kassel, onde pode ser vista até 17 de setembro. Em seu trabalho “I Strongly Believe in Our Right to Be Frivolous” (“Acredito fortemente no nosso direito de sermos frívolos”), Mounira Al Sohl retratou, em Atenas e Kassel, migrantes do Oriente Médio e do Norte da África em sua transição do estado de refugiados para cidadãos.

 

Se puder, dê uma passadinha pela mostra. Vale a pena.

 

Paulo Lannes
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