Quadro a quadro

A nudez na arte é questão superada há séculos

Paulo Lannes

Bio: Jornalista e estudante de Teoria, Crítica e História da Arte na UnB, viaja o mundo atrás de obras-primas e boas histórias. Aos sábados, ele dará dicas sobre museus e revelará curiosidades desse fascinante mundo das artes.

A nudez na arte é questão superada há séculos

Paulo Lannes Publicado em 5 de outubro de 2017

A nudez na arte. Tornou-se impossível evitar esse assunto. A questão, que passou incólume para a grande massa nas últimas décadas, virou ponto de ebulição nas redes sociais e se tornou ponto de partida para manifestações violentas – além de atos políticos de repressão.

Não vou me demorar nas questões factuais pois desejo, aqui, resgatar um pouco da história da nudez na história da arte. Meu objetivo é um: mostrar como a questão da nudez já foi superada há muito tempo na arte. Se a religião, o dogma e o conservadorismo ainda não, meu conselho é que voltem pra casa e comecem a morder os cotovelos. A arte não pode regredir.

Vamos puxar pela performance do bailarino Wagner Schwartz, que tem um largo currículo artístico, chamada “La Bête”. O projeto começou com a obra manipulável de Lygia Clark que virou peça de museu e, por isso, deixou de ser manipulável. Ele quis questionar essa comercialização da arte fazendo do seu próprio corpo uma peça móvel – pelo público que esteve no local, é claro.

Wagner Schwartz totalmente nu e exposto para a performance "La Bête". Foto: Divulgação

Wagner Schwartz totalmente nu e exposto para a performance “La Bête”. Foto: Divulgação

Assim, obviamente, ele não reagiria aos toques de quem quer que estivesse lá (e Marina Abramovic que o diga o quão longe os artistas chegam nesses aspectos – em uma de suas performances ela chegou a ser ameaçada de morte com uma arma de fogo e mesmo assim não piscou um olho). As crianças lá estiveram, mexeram em seus pés e braços e ele não se moveu, não se excitou e nem incitou o toque: como o artista que é, serviu para substituir temporariamente a peça de Lygia Clark.

Nas origens

Não há problema em achar o trabalho bobo ou de mal gosto. Mas questionar justamente a nudez do cara? Como já disse, a nudez é uma questão superada na arte. E foi superada desde…  o Renascimento. Lembra das estátuas de Michelangelo (como aquela “David”, que fica em Florença)? Ele foi um dos artistas que lutaram para desassociar a nudez (que pode ser arte) da pornografia (que, em tese, não pode ser arte).

Todas que contém “nudes” o cara tá com um piruzinho bem pequeno. Isso ocorre porque a igreja católica, ainda muito poderosa à época, considerava pornografia um falo em seu tamanho natural. Ou seja, o cara pode estar peladão, mas ele não pode ser bem-dotado.

"David", de Michelangelo. A estátua é gigante por sua nudez e pequena por seu falo. Foto: Divulgação

“David”, de Michelangelo. A estátua é gigante por sua nudez e pequena por seu falo. Foto: Divulgação

Para além das brincadeiras que o tema possa render, esse aspecto curioso deixa às claras uma questão: a própria Igreja Católica considerada a nudez algo que deveria ser belo e natural aos olhos do homem, pois o era aos olhos de Deus. Daí em diante, então, os artistas começaram a sentir liberdade em poder retratar a nudez nas artes sem que isso, de fato, fosse considerado mera pornografia, um pecado diante dos olhos do Senhor.

Mas então porque nos chocamos tanto com a nudez hoje enquanto apreciamos (e levamos nossos filhos para apreciar) a nudez exposta nos grandes museus do mundo? Afinal, há peças assim nos principais espaços culturais do Brasil e do Mundo – MASP, Belas Artes do Rio de Janeiro, Louvre, National Gallery, MET, Prado… todos eles têm obras assim, não tem como fugir!

Entre o belo e o grotesco

Então, lá vai o X da questão: nos chocamos porque a nudez da arte contemporânea não tem ligação com o belo, fio necessário para criar uma conexão da nudez com o sagrado (o belo como um ato de Deus). Ora, e qual o problema disso?

A questão do belo na arte começou a destroçada com o Romantismo, outro estilo muito popular, quando apontou-se o Belo e o Grotesco na arte – ambas, de alguma forma, atingiriam o SUBLIME na arte, uma espécie de sagrado. Daí surgem obras de mulheres nuas morrendo, de homens moribundos totalmente despidos, dos traços do horror em suas feições. Não é mais uma beleza apreciável, mas um feio apreciável. 

Há muita beleza no quadro "A morte de Sardanapalus", do Delacroix. Os corpos das mulheres estão nus e são belos, mas elas estão morrendo, estão em posições cruéis, é grotesco. Foto: Reprodução

Há muita beleza no quadro “A morte de Sardanapalus”, do Delacroix. Os corpos das mulheres estão nus e são belos, mas elas estão morrendo, estão em posições cruéis, é grotesco. Foto: Reprodução

Assim, a nudez não tem mais ligação com o sagrado de Deus, mas sim com a carne, com o mortal, com o temporário, com a violência humana. A beleza é para ressaltar o sofrimento humano. Daí para o uso da nudez na arte nos dias de hoje foi apenas um salto.

A nudez, hoje

Não vou entrar com a questão da nudez nas vanguardas modernistas porque trata-se mais de uma busca da forma do que qualquer coisa, o que – creio eu – foge um pouco o tema aqui proposto.

Com o advento da arte conceitual (que ganhou força a partir dos anos 1950), a ideia e o contexto apresentado pelo artista passa a ser a grande questão. A arte enquanto representação realista e enquanto forma estilística já tinham sido amplatamente criada e debatida, passando agora a ser questionada no cerne de seu conceito.

Em prol da nudez na arte contemporânea, o fotógrafo Kazuo Okubo fez a performance "Fotona" com dezenas de pessoas no Museu Nacional, em Brasília

Em prol da nudez na arte contemporânea, o fotógrafo Kazuo Okubo fez a performance “Fotona” com dezenas de pessoas no Museu Nacional, em Brasília

Ou seja, é na arte contemporânea que começou a se questionar profundamente o que é nudez e como a nudez se revela na sociedade. Porém, a nudez enquanto pornografia já se perdeu láááá no Renascimento.

A arte, ainda mais chancelada por um museu como o Museu de Arte Moderna (MAM-SP) e apresentada por um artista com larga experiência na área, atravessa a peneira do raso (do nudez = pornografia) para passar a elaborar questão muito mais profundas: como o corpo funciona? somos manipuláveis como uma peça cheia de dobradiças? o que você sente ao tocar um corpo com essas perspectivas em mente?

Impedir esse a produção desse conhecimento é o mesmo que pedir para que os médicos toquem nas partes íntimas das mulheres, pois isso atentaria contra a moral e os bons costumes. Tal regresso seria imperdoável para a medicina. À arte, a mesma coisa.

 

Vamos abrir a cabeça?

 

Paulo Lannes
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